Revista MultiAtual - ISSN 2675-4592

RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA GRADUAÇÃO EAD: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CONCEITUAL

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Salete Nei da Silva Lopes

Pós-graduanda em Gestão de Instituição Federal de Ensino Superior – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: saletesilva.nei@gmail.com

 

André de Carvalho Bandeira Mendes

Psicólogo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Estudos do Lazer – interdisciplinar (UFMG). Docente da Especialização em Gestão de Instituições Federais de Ensino Superior (UFMG).

 

 

RESUMO: O presente artigo apresenta o estado da arte das pesquisas sobre as relações interpessoais em cursos de graduação à distância. Consiste em uma pesquisa documental, baseada na revisão da produção bibliográfica, de abordagem qualitativa, com caráter exploratório e descritivo, cujo objetivo é analisar como se dão as relações construídas entre os graduandos e os demais colegas e professores envolvidos nesta atividade. A revisão bibliográfica buscou ainda avaliar a repercussão de conflitos interpessoais no processo de ensino e aprendizagem, propondo também, um entendimento sobre as relações compartilhadas e vivenciadas pelos alunos desse tipo de curso. Para tanto, foi feita a revisão da produção científica, aonde foram utilizadas publicações dos bancos de dados da CAPES e SCIELO complementada pela análise de dados disponibilizados pelo INEP e pela observação, buscando analisar a importância dada às relações interpessoais e sua relevância no ambiente universitário nesta modalidade de ensino. A partir da análise de seis artigos publicados entre 2007 e 2013, pôde ser concluído que o campo das relações interpessoais em EaD não é muito pesquisado, com esta temática assumindo uma posição secundária, diferente da importância dada aos métodos e técnicas educacionais, sendo notada a ênfase aos aspectos instrumentais do processo com a desconsideração destas relações.

 

Palavras-chave: relações interpessoais; Educação a Distância; universidade


ABSTRACT: this paper presents the state of the art of research on interpersonal relationships in Distance Learning Undergraduate courses. It consists of a documentary research, based on the literature review, with a qualitative approach, with exploratory and descriptive character, whose objective is to analyze how the relationships built between the undergraduates and the other colleagues and teachers involved in this activity. The literature review searching to evaluate the impact of interpersonal conflicts in the teaching and learning process, also proposing an understanding of the relationships shared and experienced by students of this type of course. To aim this objective was made a review of the scientific production, using publications from the CAPES and SCIELO databases, complemented by the analysis of data provided by INEP and by observation, seeking to analyze the importance given to interpersonal relationships and their relevance in the university environment in this area. teaching modality. From the analysis of six articles published between 2007 and 2013, it could be concluded that the field of interpersonal relations in Distance Education is not much researched, with this theme assuming a secondary position, different from the importance given to educational methods and techniques, wich emphasis on the instrumental aspects of the process with the disregard of these relations.

 

Keywords: interpersonal relationships; Distance Education; university


1 INTRODUÇÃO

 

Este trabalho tem como temática central apresentar a análise da importância das relações interpessoais que o graduando constrói entre colegas, professores e tutores em instituições de Ensino Superior Públicas na modalidade de Ensino à Distância (EaD). A partir da premissa que o relacionamento interpessoal no ambiente universitário é um fator que interfere na adaptação e na vivência desta experiência de estudante de graduação e, consequentemente, no alcance de resultados acadêmicos pretendidos pelos mesmos, nesse artigo é feita uma revisão da produção disponível sobre o assunto. Em conjunto com essa revisão, é feita uma análise dialogada com a experiência dos autores.

A motivação para tratar esse tema, surgiu da inquietação a partir da convivência com diferentes atores do curso de pedagogia EaD[1] em uma instituição de Ensino Superior Pública entre os anos de 2013 a 2017, em que houve a observação de situações inerentes ao convívio interpessoal, que vão da aquisição do novo, da  construção do conhecimento sem a presença constante de um professor presencial, até o relacionamento com demais colegas e professores da instituição, em um processo de socialização que ocorre com um público discente que tem característica estar inserido na vida adulta, com atividades como a necessidade de trabalhar e lidar com os afazeres domésticos e familiares.

O processo de socialização organizacional, que norteia os trabalhos foi definido por Borges et al (2010, p. 10) como uma situação dinâmica.

 

O processo de socialização, na perspectiva do interacionismo simbólico e construtivismo social, consiste no desenvolvimento da personalidade pelo sujeito do processo, em que ele se apropria dos costumes e valores sociais em contato com o contexto sócio histórica. É o processo de tornar-se membro de um grupo, organização ou sociedade. Socializar-se implica o desenvolvimento de uma identidade diferenciadora e, ao mesmo tempo, a inclusão sócio histórica ao meio (construído), assemelhando-se e identificando-se com os grupos de referência (BERGER; BERGER, 1977; BERGER; LUCKMANN, 1985; 2004; MARTINBARÓ, 1992; TORREGROSA; VILLANUEVA, 1984). Tal processo, portanto, é dinâmico, no sentido de que é movimento contínuo, encerra a vivência de contradições existenciais, bem como é um processo que se desenrola durante toda a vida do indivíduo.

 

 

Assumindo a perspectiva do interacionismo e do construtivismo, compreende-se neste trabalho que a adaptação, tem um caráter mais cognitivo, compatível com a elaboração de Geertz (2011), e pode ser entendida como o ajuste às diversas tarefas e exigências no âmbito pessoal, social e escolar que compõem a dinâmica do estudante no EaD, em certa medida condizente com a compreensão do processo institucional da escolarização.

A vivência, em seu sentido individual refere-se ao componente de cunho mais afetivo, ao ethos (GEERTZ, op. cit.), conceito de relacionado com a experiência pessoal do ritmo de trabalho e as relações que serão construídas naquele ambiente com os sujeitos envolvidos.

A Universidade, então, pode ser compreendida, em sua forma presencial ou à distância, com sua organização, expectativas, e necessidade de produção e cumprimento de metas e objetivos, como um dos espaços de socialização das pessoas (ROBBINS, 2005), sendo influenciado pelos papéis sociais esperados e pela singularidade individual do estudante.

Em um ambiente universitário, pode ser produzido de forma mais intensa, as demandas sociais encontradas no dia-a-dia.  Segundo Adriana Benevides Soares et al. (2018), a prática da vivência em uma instituição de Ensino Superior Pública, onde o ensino acontece a distância, exige dos alunos competência para utilizar suas habilidades sociais, principalmente em situações que exigem um maior desempenho interpessoal. A falta da presença física pode influenciar de forma significativa na construção do percurso desenvolvido pelo aluno EaD. No tocante à percepção individual do aluno deve ser considerado, como aponta Elias (1998) que nem sempre o que é relevante pessoalmente, socialmente apresenta importância, assim, é necessária a busca por pontos que permitam compreender como a pessoa singular vivencia os contextos sociais, históricos e culturais e aspectos da personalidade que influem nestes.

Para apresentar as definições a respeito das relações interpessoais em um ambiente de trabalho universitário a distância, bem como a convivência estabelecida pelos graduandos de pedagogia com os sujeitos envolvidos nesse processo, nesse artigo é realizada a análise de publicações dos bancos de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) onde foi feita uma revisão da produção bibliográfica, com o intuito de se fazer saber a produção existente acerca de como as relações interpessoais acontecem e interferem no processo de ensino/aprendizagem dentro dos ambientes universitários a distância. Também são apresentados os conceitos de relações interpessoais, Educação a Distância e os problemas que os graduandos enfrentam ao escolher esse tipo de ensino.

É possível inferir, com base na análise da produção bibliográfica e na vivência nas organizações, que o relacionamento interpessoal, quando positivo, aumenta a produtividade e a satisfação dos acadêmicos, mas quando negativo, pode prejudicar, e muito, a qualidade de aprendizado e o desempenho acadêmico desses alunos. Essa observação, ainda que algo consensual, considera que o comprometimento, como aspecto do comportamento organizacional, repercute nas relações com as instituições e seus participantes.

 

2 OBJETIVOS

 

Este artigo tem como objetivo avaliar a produção bibliográfica sobre as relações construídas entre os graduandos de cursos EaD com seus colegas e educadores e as dificuldades que muitos enfrentam em construir relações sem a presença física constante, a fim de verificar a existência de produções acerca destas relações e possíveis conflitos interpessoais, assim como a sua repercussão no ensino e na aprendizagem.

 

3 METODOLOGIA

 

Considerando o objetivo exposto, o presente estudo trata-se de uma pesquisa documental de abordagem qualitativa, com caráter exploratório (GIL, 2002). Recorreu-se a pesquisa bibliográfica sobre relações interpessoais no ensino à distância para fundamentar as discussões e a análise dos dados coletados. Em busca nos portais da CAPES e SCIELO, utilizando os descritores: relações interpessoais, educação à distância e universidade, o primeiro retornou cinco trabalhos e o SCIELO apenas um.

A escolha se deu por conveniência, atendendo aos objetivos da pesquisa, com o delineamento das palavras chaves focado na temática.  Foram encontradas seis produções, publicadas entre os anos de 2007 e 2013. Após a seleção dos textos, no Portal da CAPES, em setembro de 2019, com a consulta sendo novamente verificada no mesmo mês, foi realizado o download dos textos no formato PDF. Com os trabalhos disponíveis, foi feita uma leitura detalhada, para se obter a visão do panorama atual e compreender os seus conteúdos. Conforme a necessidade sentida, a leitura foi sendo retomada em partes mais significativas para a montagem dos resultados.

Nos trabalhos encontrados, foi observado que dois são referentes a pesquisa de pós-graduação, um foi escrito por uma doutora em Educação, um consiste em dissertação de mestrado, um em relatório de pesquisa e outro estudo foi escrito por uma pedagoga, em conjunto com uma mestra em ciência da educação e uma doutora em informática. Esses artigos enfatizam o relacionamento interpessoal na educação à distância e como este influencia na adaptação e desenvolvimento acadêmico. Os dados dessa pesquisa foram coletados de trabalhos escritos a partir de 2007, ano que foi instituído o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).

Nos trabalhos pesquisados, nota-se que foram utilizadas cinco entrevistas semiestruturadas individuais, um aponta o uso do método etnográfico, além de observação e relatórios. As buscas levaram ao esclarecimento de como as relações se estabelecem no cotidiano da EaD, como cada agente se vê e se percebe e como reconhece o outro nesse processo.

 

4 RELAÇÕES INTERPESSOAIS E O ENSINO A DISTÂNCIA

 

O homem é um ser social e é natural do ser humano se relacionar em todos os ambientes que frequenta, interagindo com pessoas e objetos, de maneira ativa e passiva. Independente do grau de afinidade que se cria com os outros é preciso desenvolver algum nível de empatia que possibilite realizar ações em conjunto. As relações interpessoais é um autoconhecimento, são aprendizados que se obtém sobre os próprios sentimentos e conflitos internos que interferem diretamente no mundo exterior. Essa relação pode modificar o ambiente em que se vive e resolver problemas e conflitos enfrentados no dia-a-dia.  Ao discorrer sobre o conceito de relacionamento interpessoal, Marques (2018, p.1) afirma:

 

De acordo com a Psicologia e a Sociologia, podemos definir Relacionamento Interpessoal como a ligação, conexão ou vínculo entre duas ou mais pessoas dentro de um determinado contexto. Este, por sua vez, pode ser o ambiente de trabalho, familiar, social, religioso, amoroso ou educacional, por exemplo.

 

Assim sendo, é natural do ser humano relacionar e dessa forma, busca sempre estar ligado a alguém para trocar emoções, energia e conhecimentos.  Quanto mais positivos e melhores for a relação estabelecida com o outro, maiores as chances de construção de conexões e laços verdadeiros com as pessoas nas quais se convive.

A educação é um direito fundamental que cada ser humano possui que ajuda, não só no desenvolvimento de um país, mas também no desenvolvimento pessoal. Através dela, o desenvolvimento social, cultural e econômico passa a ter suas possibilidades garantidas. Existem vários tipos de modalidade de ensino reconhecidas no Brasil que são definidas por leis. Como se vê nas ideias de Sylvia Constant Vergara (2007), as formas tradicionais de ensino não estão dando conta de acompanhar o ritmo acelerado do turbilhão de inovações tecnológicas, a falta de tempo e as incertezas e impaciências, o excesso de informação e a necessidade de um número maior de pessoas com escolaridade mais elevada, convindo apontar que este fenômeno não necessariamente implica em serem mais educadas em um sentido amplo.

Perpassando pelas diferentes modalidades, é nesse contexto que se encontra a modalidade de ensino a distância, que vem crescendo bastante no território brasileiro, na qual é constatado que “O aumento do número de ingressantes entre 2017 e 2018 é ocasionado, exclusivamente, pela modalidade a distância, que teve uma variação positiva de 27,9% entre esses anos, enquanto nos cursos presenciais houve uma variação de -3,7%” (BRASIL, 2019; p. 15)”.

Segundo Luiz Fernando Gomes (2013, p. 1) “A Educação a Distância (EaD) no Brasil, foi criada e se desenvolveu por meio de iniciativas privadas e decretos governamentais, cumprindo uma trajetória que acompanha a introdução e o crescimento de cada tecnologia no país”. A EaD é uma modalidade intermediada pela internet, que oferece diversos recursos que garantem graduação, qualificação técnica e até pós-graduação para os ingressados e se diferencia da modalidade tradicional pela forma como os conteúdos educacionais são repassados, a ausência da presença física e a forma que se dá a relação dos alunos com seus professores e colegas de curso.

As relações interpessoais e a aprendizagem possuem característica em comum, pois para que ambas aconteçam, é preciso pelo menos a mediação de duas pessoas. A boa relação entre professor, aluno e demais colegas de classe, é um dos principais fundamentos para o desenvolvimento de equilíbrio e sucesso no processo de ensino aprendizagem.

O relacionamento entre os sujeitos é uma questão muito enfatizada na modalidade de ensino presencial. Ao pensar a EaD, a primeira coisa que emerge é exatamente essa relação, que é peça fundamental na construção do indivíduo e da sociedade em que está inserido.  Na EaD, essa relação também existe e se expande para além da relação aluno/professor. Essa relação exige racionalidade e os afetos divididos entre os sujeitos. O relacionamento interpessoal existente na EaD é diferenciado do vivenciado no curso presencial, pois na EaD o aluno não escolhe com quem quer se relacionar.

Relacionamento para alcançar os objetivos específicos do processo educacional, precisa ter contornos particulares. Segundo Vergara (2007), “relacionamentos em EAD devem provocar a curiosidade no aluno e criar-lhe oportunidades para o fortalecimento de habilidades sociais na interação fecunda com outras pessoas”. Sendo assim, as relações em EaD, ainda que enfatizem aspectos relacionais, são incentivadas a colocar o foco no papel instrumental da educação e suas técnicas. Assim é nítida a ambiguidade entre o papel de estimular a autogestão, a busca de autoconhecimento e à formação de valores morais, fazendo com os alunos se tornem cidadãos situados historicamente, e o afastamento que pode ser gerado pelas Tecnologias de Comunicação no relacionamento com os demais, onde a tecnologia, paradoxalmente, afasta e aproxima, estimula a relação e também cria barreiras ao convívio presencial. No momento atual, um desafio é a busca da conjunção destes aspectos.

 

4.1 Análise dos dados

 

Na tabela 1 podem ser observadas as informações obtidas pela pesquisa no portal da CAPES. A partir dos descritores selecionados, restringindo a amostra aos publicados a partir de 2007, foram encontrados seis trabalhos.

 

QUADRO 1

Trabalhos selecionados a partir da pesquisa no portal

Título

Ano

Instituição

Estreitando relacionamentos na Educação a Distância

2007

UFRJ

As relações interpessoais na construção da EaD sob um enfoque etnometodológico e multirreferencial

2009

Universidade Metodista de São Paulo

Competências: desafios para alunos, tutores e professores da EaD

2009

UFRGS

Relações interpessoais em comunidades virtuais de aprendizagem

2010

UFC

A afetividade mediada por meio da interação na modalidade a distância como fator preponderante para diminuição da evasão

2011

UCB

A confiança e as relações interpessoais assegurando o compartilhamento do conhecimento no ambiente virtual de aprendizagem

2013

UFSC

Fonte: elaborado pela autora, 2019.

 

O primeiro artigo, com o título: “Estreitando relacionamentos na Educação a Distância”, é de em 2007 escrito por uma doutora em educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O artigo privilegia a EaD e a questão do relacionamento entre professores e alunos.

Neste texto é argumentado que o relacionamento não é só privilégio do ensino presencial, e que na EaD esse, também é possível, ocorrendo não apenas entre professores e alunos, mas entre todos os sujeitos envolvidos naquele espaço. Fica evidente nesta produção que a EaD é um fator de grande potencial contributivo à educação presencial. A relação entre professor e aluno existe na EaD, mas vem de forma diferenciada, pois não existe o contato face a face.  Os relacionamentos em EaD devem ter foco no papel da educação, onde a principal função é de alentar os alunos a serem pessoas plenas. Ações que estreitem as relações, estão associadas à lealdade, comprometimento, confiança e ajuda mútua.

O segundo “As relações interpessoais na construção da EaD sob um enfoque etnometodológico e multirreferencial”, de 2009, é uma dissertação do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo. É proposto no trabalho um entendimento sobre as relações interpessoais entre os sujeitos envolvidos na construção e execução do projeto pedagógico de educação da modalidade a distância sob uma perspectiva etnometodológica e multirreferencial, com o objetivo de identificar como cada agente se vê e se percebe e como entende e reconhece o outro nesse processo. Também busca identificar como os relacionamentos se estabelecem no cotidiano da EaD e como os agentes se interagem na estruturação do trabalho.

Esta dissertação mostra que as relações interpessoais são fundamentais para a construção dos processos de EaD. Essa, exige um intercâmbio de competências sendo um processo em construção. Entretanto, quando se trata de conhecer processos gerais que envolvem outros setores de trabalho, há uma ruptura nos processos comunicativos e interacionais. Na modalidade à distância, o professor não é o foco principal e o aluno não é apenas um receptor de informações. Os papéis se misturam na tarefa educativa, onde o aluno assume papel de grande autonomia e participação. Já o professor, divide seu papel com demais profissionais de importância similar. Apesar de não estar explícito neste trabalho podem ser reconhecidas algumas características da pedagogia freiriana.

O terceiro “Competências: desafios para alunos, tutores e professores da EaD”, foi publicado em 2009, por uma pedagoga, uma mestra em ciência da educação e uma doutora em informática. Trata-se de uma pesquisa feita por pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que evidencia que os papéis assumidos na EaD são diferentes do que na modalidade presencial. A EaD exige habilidades e competências apropriadas, sendo o uso das novas tecnologias a de maior destaque. São necessárias competências mínimas para o papel de aluno, tutor e professor virtual.

Nesta modalidade, o relacionamento interpessoal entre alunos, professores e tutores estão interligados. Professores e tutores, responsáveis pela mediação pedagógica, auxiliam e criam meios para ajudar os alunos a aprender e o aluno precisa se propor a aprender. Os alunos, por sua vez, precisam ter comprometimento e disciplina e organização com relação a tempo e espaço para que tenham êxito em seu processo de aprendizagem. Constatou-se nessa pesquisa que a disseminação da EaD e a reconfiguração do ensino aprendizagem são os fatores que transformaram a forma como alunos e tutores se relacionam entre si e com o objeto de estudo/conhecimento.

O quarto “Relações interpessoais em comunidades virtuais de aprendizagem” foi escrito em 2010 e trata-se de parte de uma dissertação de mestrado, construído na Universidade Federal do Ceará (UFC), tendo como objetivo investigar as relações interpessoais em cursos a distância. As manifestações das diferentes relações interpessoais dependem da dimensão pessoal e não apenas da dimensão situacional, sendo dada em determinados contextos e em situações específicas e nas trocas de pensamentos, ideias e significados, essa fica mais evidente. Na EaD, as habilidades sociais dos indivíduos são percebidas através da escrita, sendo a comunicação predominantemente textual. As relações se dão através de uma proximidade demonstrada em estar junto através de pensamentos e ideais, dando significado às interações virtuais e não apenas a presença física. Fica claro neste estudo que as relações interpessoais são muito importantes em qualquer modalidade de ensino. O uso dos espaços virtuais não interfere nos tipos de relações e os encontros presenciais são fontes de fortalecimento dessas relações.

O quinto “A afetividade mediada por meio da interação na modalidade a distância como fator preponderante para diminuição da evasão” publicado em 2011 sendo um relatório de pesquisa desenvolvido na Universidade Católica de Brasília (UCB). Esse trabalho buscou mostrar que diversos são os motivos que levam a um grande número de evasão em um curso a distância, sendo distância física entre professor e aluno uma das maiores.

A afetividade que se desenvolve por meio da mediação e interação entre os atores envolvidos no curso, pode contribuir para a permanência do aluno no curso e, consequentemente, diminuir o número de evasão. O grau de satisfação dos alunos que criam vínculos de interação com tutores e demais colegas, é muito maior do que dos alunos que apenas utilizam as ferramentas e materiais pedagógicos disponibilizados. O papel do tutor é de suma importância nessa modalidade, cabendo a ele instigar e despertar no aluno o interesse e a curiosidade para ir além; sendo considerado um dos principais fatores para a permanência ou desistência do aluno no curso. Dessa forma, faz-se necessário maior investimento institucional na tecnologia e no treinamento e capacitação desses profissionais.

O sexto “A confiança e as relações interpessoais assegurando o compartilhamento do conhecimento no ambiente virtual de aprendizagem” foi publicado em 2013, sendo uma tese para o programa de pós-graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa apresenta os fatores que interferem nas relações interpessoais e na confiança para o compartilhamento de conhecimento nos ambientes virtuais de aprendizagem. A padronização dos elementos e ferramentas diminui as possibilidades de interação. As interações geram um ciclo de mútua influência que levam ao surgimento de outras. A confiança que se estabelece entre os membros do curso facilita muito o surgimento das interações, ou seja, as interações são causas de relações interpessoais e as relações interpessoais possibilitam o estabelecimento da confiança, que por sua vez, facilita o surgimento de mais interações. Faz-se necessário um número maior de encontros presenciais, pois são neles que os laços de confiança vão ser criados. A padronização do ambiente, a uniformização das disciplinas, um número menor de encontros presenciais são fatores que interferem nas relações interpessoais e na confiança de compartilhamento de conhecimentos.

Apesar do relacionamento na EaD ser diferenciado, esse também existe e é fonte de interação e criação de confiança. Ao analisar os trabalhos identificados pode-se notar que todas as produções são voltadas para as relações interpessoais na EaD. O aprimoramento da mesma na construção da EaD, pode determinar o potencial de adesão das instituições de educação.

Com o uso do recurso de nuvem de palavras, que superficialmente se assemelha aos instrumentos de Análise de Conteúdo (GIL, op. cit), os títulos dos artigos encontrados foram submetidos à ferramenta Tagcrowd[2], sendo encontrada a prevalência das palavras relações interpessoais, com três ocorrências, seguidas pelas palavras e termos aprendizagem, EaD e distância, conforme pode ser visto na figura 1.

Figura 1 – Nuvem de palavras dos títulos dos artigos.

Fonte: elaborado pela autora, 2019.

 

Esta ocorrência permite inferir que, realmente, as relações interpessoais, pela sua frequência, apresentam forte peso nos trabalhos produzidos.

Alunos que mantêm relações interpessoais positivas com tutores e demais colegas, laços afetivos de amizade, lealdade, compartilhamento, proximidade e confiança, apresentam maiores possibilidades de permanecerem até o fim do curso. Os resultados dos trabalhos apontam situações consideradas fáceis e difíceis. Nas consideradas difíceis, os alunos têm dificuldades de lidar com as relações interpessoais, o que gera conflitos interpessoais. Nas situações consideradas fáceis, está o relacionamento com demais colegas, onde há admiração pelos mesmos, a tolerância com a diferenças, a socialização e a aceitação. As relações interpessoais que se concretizam na EaD, são entendidas como fator de suma importância para a adaptação, vivência, desenvolvimento acadêmico, sendo essa condição básica para gerar aprendizagem diminuir a evasão, que é um grande desafio institucional para as faculdades e universidades, ainda mais nesta modalidade (BRASIL, 2019).

Unindo teoria à prática, a análise dos textos com a experiência vivida em um curso da modalidade à distância, pode-se notar que no espaço universitário, as demandas sociais são reproduzidas de forma mais intensa. Na modalidade de ensino a distância, assim como no presencial, o aluno precisa realizar tarefas que necessita de convivência e interação. Realizar trabalhos em equipe, interagir com pessoas com características pessoais e sociais diferentes, pode ser algo positivo ou negativo, dependendo do ponto de vista de cada um, ou seja, a forma que cada um consegue lidar com o relacionamento interpessoal.

O relacionamento na EaD vai além daquela vivida entre tutor e aluno. As relações com demais colegas e o restante de atores envolvidos no processo, interfere muito na forma como o aluno se adapta ao ambiente. Dentre todas as relações interpessoais estabelecidas na instituição de ensino, a relação aluno/tutor é a mais delicada. Isso acontece porque o tutor incorpora o papel de depositário do conhecimento, esquecendo por vez que o aluno não é apenas mero espectador passivo. A relação interpessoal saudável é aquela que permite uma cumplicidade entre aluno e professor, onde é proporcionado um convívio baseado na confiança e na troca de experiência.

Para facilitar as relações interpessoais nos ambientes virtuais de ensino, os alunos se valem de trabalhos realizados em grupo, símbolos e recursos tecnológicos disponibilizados no ambiente. O que dá significado às interações virtuais, é a capacidade de demonstrar emoções positivas ou negativas, a expressão da solidariedade, estabelecimento de relacionamento afetivo e duradouro.

A troca de informações, utilizando um recurso multimídia disponibilizado no ambiente virtual, interação nos fóruns, conversas no chat, os trabalhos em grupos, grupo de estudos e as redes sociais, são fatores positivos de promoção das relações interpessoais, que são reforçadas com os encontros presenciais nos polos, onde os alunos têm a oportunidade de reforçar os laços de afetividade criados no ambiente virtual.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A construção desse artigo se deu através de uma pesquisa documental de abordagem qualitativa com caráter exploratório. Recorreu-se a pesquisa bibliográfica para analisar produções acadêmicas sobre as relações interpessoais na EaD, com o intuito de se fazer saber sobre as relações construídas entre graduandos, seus professores e colegas de curso. Afim de complementar essa pesquisa, foi feita uma análise dialogada com a experiência de um dos autores.

As análises demonstram que as relações interpessoais em EaD são muito importantes para o sucesso e permanência dos alunos nesse tipo de curso, visto o alto número de evasões. Dificuldades e conflitos são vivenciados, mas podem ser mitigados pela afetividade, o companheirismo, o comprometimento, a confiança, a interação e pela ajuda mútua. Relação entre aluno e tutor deve-se dar através da mediação, onde o tutor irá ajudar o aluno a se fortalecer como autônomo e pensante, consequentemente, o aluno contribui sendo comprometido, disciplinado e organizado.

Ao fazer as pesquisas com as palavras-chave, pouco foram os resultados encontrados. Nota-se que o tema relações interpessoais em EaD não é muito pesquisado e tampouco elaborado, podendo ser essa, uma frente de pesquisa futura que aborde como elas se constituem, qual a função que as tecnologias têm nessa mediação, e se a evasão seria um sinal de dificuldades nos relacionamentos interpessoais, ainda que grande parte do contato se dê por meios eletrônicos e virtuais.

É relevante apontar que os artigos, em sua maioria, são de 2010, dado compatível com a popularização do acesso à internet, uso de redes sem fio e expansão da rede de dados da telefonia móvel. Além destes fatores, que ultrapassam o escopo deste trabalho, na época citada, aconteceu a popularização e maior uso de smartphones, fato que também merece ser mais investigado futuramente.

Por fim, foi notado que as relações são vistas, principalmente, sob a ótica instrumental. Ainda que pese o fato da EaD não ser uma modalidade tão recente, remontando sua prática mais estruturada ao final do século XVIII, quando era feita por meio de cursos por correspondência, o advento da internet e seus recursos, como comunicações síncronas e assíncronas em tempo real, possibilidade de vídeo-aulas interativas, podcasts e outras maneiras de interação, elaboração e disponibilização de conteúdos deixou muitas vezes o relacionamento interpessoal entre os participantes de lado, desconsiderando a pessoa como um ser constituído nessas relações.


REFERÊNCIAS

 

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[1] A autora fez a graduação nessa modalidade na Universidade Federal de Lavras (UFLA).

[2] O aplicativo Tagcrowd encontra-se disponível no endereço eletrônico <https://tagcrowd.com/> e constitui uma forma interessante de tratamento de informações. Último acesso em 04 de novembro de 2019.



Recebido em 08 de agosto de 2020
Publicado em 01 de setembro de 2020


Como citar este artigo (ABNT)

LOPES, Salete Nei da Silva. MENDES, André de Carvalho Bandeira. Relações Interpessoais na Graduação EAD: Uma Revisão Bibliográfica Conceitual. Revista MultiAtual, v. 1, n.5., 01 de setembro de 2020. Disponível em: https://www.multiatual.com.br/2020/08/relacoes-interpessoais-na-graduacao-ead.html
RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA GRADUAÇÃO EAD: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CONCEITUAL RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA GRADUAÇÃO EAD: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CONCEITUAL Reviewed by Revista MultiAtual on agosto 18, 2020 Rating: 5
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